Atravessar

Há travessias que nos chegam sem aviso. Uma palavra, um encontro, uma perda — e de repente não estamos mais no mesmo lugar. Atravessar é mais que ir de um ponto a outro: é consentir que a passagem nos transforme. Nesta página, reunimos as crônicas que carregam a marca do atravessamento — aquelas que falam de deslocamentos, de encontros que deixam marcas, de instantes em que algo se rompe e se refaz.

O atravessamento como experiência

Na experiência humana, atravessar é verbo de ação e de paixão. Atravessamos a rua, o oceano, a noite. Mas também atravessamos a dor, o desejo, o tempo. Cada crônica deste arquivo testemunha esse duplo movimento: o de cruzar um limite e o de ser atravessado por ele. A psicanálise nos lembra que o sujeito é, antes de tudo, um ser de linguagem que atravessa o real — e que é atravessado por ele. A travessia é, nesse sentido, uma condição constitutiva: estar vivo é estar em trânsito, entre o que fomos e o que ainda podemos ser.

Atravessar o desejo e a perda

O desejo nos atravessa como corrente de silêncio e fala. Na travessia do desejo, há sempre o encontro com o outro e com a falta. Talvez por isso os textos desta tag falem tanto de amor, de luto, de ausência — porque é na perda que nos damos conta de que estávamos em travessia. A crônica "Você me atravessou" é, nesse sentido, uma declaração de que o outro nos transforma antes mesmo que possamos compreender como. Já em "Ne pas céder sur son désir", a travessia é ética: não ceder sobre o próprio desejo é atravessar a repetição em direção à liberdade.

O outro que nos atravessa

Não atravessamos sozinhos. Os vínculos que criamos — com pessoas, lugares, memórias — são os veículos de nossas travessias. Em "Presença", o que se atravessa é a distância entre dois corpos que se tocam pelo afeto. Em "Aquele Dia", o tempo é atravessado pela lembrança de um encontro que já não existe senão na memória. Cada relação é uma travessia: amamos, perdemos, seguimos. E nesse movimento, algo de nós fica no outro, algo do outro vem habitar a gente.

A travessia e a escrita

Escrever é, talvez, a travessia mais íntima. É quando a palavra tenta nomear o que nos move por dentro. Nestes textos, a escrita não é apenas registro — é o próprio gesto de passar. Do silêncio à voz, da dor à significação, da solidão ao encontro. Cada crônica é uma tentativa de dizer o que não se deixa dizer, e nesse movimento, algo se atravessa. "Redemoinho calmo" fala de um tempo que se dobra sobre si mesmo; "Presença" tenta fixar o instante em que dois corpos se reconhecem. A escrita é a travessia que permanece.

Atravessar o tempo

O tempo é a travessia que não escolhemos. Os dias passam, as estações mudam, e somos levados por um fluxo que muitas vezes escapa ao controle. Mas há instantes que se fixam — memórias que insistem em retornar. Em "Aquele Dia", o tempo é convocado pela recordação; em "Redemoinho calmo", ele se dobra e perde a linearidade. Escrever sobre essas experiências é tentar parar o tempo ou, pelo menos, compreendê-lo de outro modo. O tempo atravessa a gente, mas a gente também pode atravessá-lo — com palavras, com afetos, com presença.

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